Feeds:
Artigos
Comentários

Archive for the ‘Mafalda Alves’ Category

O Pássaro e a Menina

A brisa estava mais fresca do que o costume. Talvez tivesse a ver com as horas a que o meu bando sobrevoava as terras frias, talvez fosse dos ventos do norte. Talvez. Apenas sabia que o meu destino estava traçado com a minha partida da Dinamarca, onde o frio era demasiado para nós, andorinhas, sobrevivermos. Íamos viajar rumo ao sul, onde os ventos eram quentes, as paisagens desertas, os animais eram amigáveis e as pessoas inofensivas. Vamos deixar o frio, a neve, e as paisagens envoltas de névoa.

No dia seguinte pela aurora fresca, já estaríamos em África, desfrutando do calor e da comida.

Esta era a minha primeira emigração, visto que a localidade onde eu vivia tinha muitos becos e cantinhos quentes e húmidos, onde andorinhas pequenas como eu conseguiam passar o inverno, visto que praticamente ninguém ia lá.

Porém, eu tinha crescido, e os cantinhos onde eu ainda cabia antes, começaram a diminuir, até já não haver nenhum suficientemente grande e quente para mim. Estava na hora de deixar o meu doce lar de criança e começar uma nova família.

Pela manhãzinha, começámos a avistar a silhueta das árvores, depois a savana, e, cada vez mais perto, os animais e as aldeiazinhas cheias de pessoas. Pousámos numa pequena árvore perto de uma aldeiazinha, e, de tão cansados que estávamos, caímos num sono profundo durante longas horas.

Ao despertar, os meus companheiros de viagem foram procurar comida e explorar as redondezas, mas eu preferi ir conhecer a aldeiazinha.

De todas as casas que vi, uma chamou-me a atenção, não sei bem porquê. Era modesta e pobre como todas as outras, só que esta estava rodeada de pinturas e desenhos infantis, de mãos, bonecos, casinhas, animais… tudo em volta da casa. Como gostei tanto da casa, decidi pousar um pouco na sombra fresca do parapeito de uma pequena janelinha nas traseiras da casa. Passados uns minutos, uma menina, que não devia ter mais de 6 anos, dirigiu-se a mim, com um sorriso inocente e um olhar genuíno. A menina era pequena e franzina, de pele escura e cabelo encaracolado, cheio de trancinhas.

– Olá – disse-me a menina

– Olá – respondi-lhe

– Mas tu falas? – Disse a menina, muito surpreendida.

– Claro que sim, nós andorinhas, sabemos a linguagem dos humanos, ou pensavas que andávamos para aí a piar toda a hora? Não, só piamos para comunicarmos uns com os outros.

– Está bem. O meu nome é Karyline, mas podes tratar-me por Kary. E o teu?

– Eu sou uma andorinha, Kary, não tenho nome.

– A sério? Sempre pensei que os animais tivessem nomes como nós…

– Não, só os cães e os gatos é que têm. Então, … Karyline? Quantos anos tens?

E a conversa durou horas e horas. A Karyline era mesmo uma menina fantástica…. A partir daquele dia, a Kary esperava-me todas as tardes na pequena janelinha, e eu ia sempre ter com ela, para termos as nossas grandes conversas.

Até que um dia, eu tive de partir de volta para a Dinamarca.

– Mas por que é que tens de ir? Tu és o meu melhor amigo e eu adoro-te!

– Tem de ser, Kary. Também me custa muito, mas os meus dias de emigração acabaram por este ano. Mas eu prometo que muito em breve estarei de novo aqui.

-Prometes? Eu vou esperar todos os dias por ti aqui.

– Prometo. Antes mesmo de tu dares conta, aqui estarei eu, no parapeito da pequena janelinha das traseiras.

Mafalda Alves, 7.º ano

Read Full Post »

O Salvamento do Arco-Íris

Nota de Abertura:

Através do professor Rui Teixeira, tomei conhecimento deste texto escrito pela nossa antiga aluna, Mafalda Alves.

Do meu ponto de vista, este texto demonstra a criatividade e o espírito observador de uma criança de 10 anos, ao olhar para o que a rodeia.

O texto está intocado, tal e qual como me chegou às mãos. Mas, achei-o tão simples, tão carregado de simbologia e com uma frescura criativa que não resisti a deixá-lo aqui para que todos possam lê-lo.

José Romão

Director Pedagógico

Alfragide, 14 de Março de 2010

 

Recentemente verifiquei que o texto foi retirado da directoria onde estava colocado nos servidores da Universidade Lusófona. Por isso o deixo aqui como testemunho do gosto por escrever e da criatividade que é tão necessária para expressarmos de forma diferente o que nos vai na alma.

19 de Dezembro de 2010

 

 

Era uma vez um Arco-Íris. Um Arco-Íris que foi salvo por alguém muito corajoso. E é nesse Arco-Íris que nascem as cores que, depois, caem do céu e se instalam nas coisas da terra que nascem também. Depois de adultas e de pelo menos terem ocupado vinte objectos novos ou em segunda mão é que as cores se reformam. Entretanto, vão desbotando e perdendo a cor, até se tornarem em branco ou preto. Merecem tornar-se em branco, aquelas que levaram uma vida honesta e trabalhadora. As que se tornarem em preto é porque foram desleais para com os seus princípios e o reino em que nasceram, nomeadamente o, Reino do Bom Arco-Íris. A rainha do Reino do Bom Arco-Íris é a Luz Branca.

Existe também outro reino, mas esse apenas cria o preto que também faz falta e é bonito, se não significasse coisas más. O rei desse reino é o grande rival do Bom Arco-Íris. Chama-se Gótico e o seu re ino escuro como breu, tem o nome de… Escuro. Ele pretende que o preto e os seus feios significados reinem no mundo. Que as pessoas vivam tristes e sem vida, como tudo o resto à sua volta… tudo escuro, tudo triste, tudo morto, tudo mau.

Mas as cores e o seu reino têm ganho esta batalha e o mundo continua cheio de vida e de cores. Mas alguma fatalidade está para acontecer… sente-se no céu, e o Gótico planeia algo.

Púrpura e seus amigos brincam juntos antes da escola, brincam à apanhada, ao “descobre lá a cor”, às “tintas levadas da breca”… e muitos mais jogos tradicionais de meninos do 2º guache (2ºano).

Tocou para a entrada. Hoje o Verde está contente porque é conta-cores (matemática), mas a Púrpura não, ela não gosta de conta-cores, prefere palavras-coloridas (língua portuguesa).

Depois da escola, a Púrpura regressou a casa e, depois dos deveres, da lavagem-colorida (banho), e do jantar, foi deitar-se. Depois de remoer e de dar voltas na cama, Púrpura levantou-se e foi dizer ao pai Vermelho que não conseguia dormir porque estava muito escuro. O pai assegurou-lhe que estava a luz-com-cores (candeeiro) do seu quarto acesa. Mas Púrpura negou e encaminhou-o até ao seu quarto:

– Vês papá, a luz-com-cores está apagada.

– Minha doce filha, deves tê-la apagado e não te lembras. Agora dorme, tens de descansar. Como eu costumo dizer, “quem dormir cedo e cedo se levantar, mais colorido no dia seguinte vai ficar.”

Mas Púrpura não se convenceu. Continuava a pensar que o reino da escuridão estava a atacar. E era mesmo isso que se estava a passar. O reino do Escuro planeava espalhar tinta negra do caldeirão da bruxa incolor. Já estava a começar !!! Já no reino do escuro… gótico ria-se á gargalhada do mal que estava a fazer. Eram risadas maléficas.

Enquanto os criados do reino Escuro espalhavam o mal por todo o mundo, a rainha Luz Branca já se tinha apercebido e iria reportar todo o povo colorido para o Arco-íris e, quem não concordasse ou contasse ao reino das trevas, iria preso. A prisão era horrível. Mas a rainha nunca chegava a estas medidas, nunca ninguém ia lá parar. Mas neste caso era mesmo necessário. Na prisão, o trabalho era lavar paredes pintadas com tinta permanente. Portanto, durava a vida de qualquer cor.

Todos se evacuaram das suas casas nas nuvens e deslocaram-se para a praça principal do Arco-Íris. A Púrpura estava de rastos e muito triste e não parava de relembrar ao pai que iriam desbotar para preto e que o escuro reinaria para sempre.

Foi então que, quando já todas as cores estavam reunidas, a rainha disse:

– Como já devem ter reparado, o reino do Escuro, do qual é rei o meu irmão Gótico, está a atacar mais uma vez.

É verdade, o rei do Escuro era irmão da rainha das Cores.

– Neste momento – continuou a rainha – eu aceito todas as sugestões de vós meu povo, pois temos que salvar as cores, para que o mundo não perca a vida e, para que o Escuro não ganhe nenhuma batalha, depois de ter saído perdedor de todas as nossas batalhas que já perduram há anos.

Depois de muito se discutir, chegaram a um acordo. Todas as cores, mesmo até as reformadas, iriam espalhar a sua magia por todo o mundo, e, os militares-de-aguarelas iriam ao reino Escuro onde todos trabalhariam todo o dia e todos os dias e só parariam à noite, para descansar. Só as crianças seriam poupadas. E foi dessa regra que a Púrpura não gostou. E não gostou por duas razões:

1º-tinha de ficar com a D.ª Calabás (Púrpura odiava-a);

2º-ela também queria ir salvar as cores;

Se bem o pensou, melhor o fez. Quando os militares-de-aguarelas partiram, a Púrpura, infiltrou-se e seguiu-os até ao reino do Escuro. Lá era tudo tão morto e escuro…Púrpura já estava assustada.

Mas a coragem ganhou e ela continuou o seu caminho até ao trono do Gótico. Púrpura procurou uma arma para deter o rei. Mas concluiu que a melhor arma para o deter estava em si própria. Era a sua cor, brilho e vida que deteriam o rei do Escuro.

Já no Bom Arco-Íris, a D.ª Calabás, contava e recontava as crianças, que eram noventa e nove sem a Púrpura que era a centésima.   D.ª Calabás correu todo o Arco-Íris, todas as nuvens, falou com toda a gente, e, até com a rainha, que, por sua vez falou com os adultos e com os militares-de-aguarelas… Porém, ninguém sabia da Púrpura. Já todos temiam o pior, que Púrpura tinha sido engolida pelo Escuro.

Enquanto isso, Púrpura espalhava a sua cor por todo o lado sem o rei Gótico dar por nada. Transformava as poções em luz e os servos em muitas cores. Até que chegou a altura de transformar o caldeirão negro, que continuava a derramar a sua maldade por um cano que iria dar ao Bom Arco-Íris. Quando Púrpura, uma menina corajosa, se preparava para arruinar o plano de Gótico, este apareceu.

Ela estremeceu e escondeu-se debaixo da mesa. Mas Gótico detectou-a e mandou alguns servos procurarem-na. Púrpura transformou-os a todos em cor. Quando o rei os viu, foi ele próprio em busca dela. Correu por toda a parte e encontrou-a:

– Minha menina, o que fazes aqui? Não penses que arruínas o meu plano, já para a masmorra!!!!!!!!!

Quando Púrpura ouviu isto, fugiu logo de debaixo da mesa e começou a lançar cores ao rei. Este que não gostou, também começou a lutar.

Depois de muita luz e escuro, cambalhotas e pinotes, Púrpura apanhou o rei de costas e empurrou-o para o caldeirão negro que o engoliu. Com a barriga cheia , parou de derramar trevas. O Bom Arco-Íris estava salvo!!!

Quando os militares-de-aguarelas chegaram e se aperceberam do sucedido, levaram Púrpura para casa e esta explicou a todo o reino o que acontecera. O pai estava orgulhoso e a rainha contente:

– Tu foste muito corajosa! A partir de hoje, serás o meu braço direito e, quando eu desbotar, serás a rainha!!!

Púrpura agradeceu e disse:

– Obrigada meu povo!!! A primeira coisa que farei quando reinar, é permitir que todos pintem tudo o que quiserem com a cor que quiserem, coisa que é proibida aqui. Porque não é preciso organização para algo ficar artístico ou bonito. A verdadeira arte está na criatividade.

E todos concordaram e riram. Aquele dia passou a ser feriado em todo o mundo e Púrpura reinou com todo o seu coração e tornou-se uma grande mulher, que nunca foi esquecida.

 

FIM

Read Full Post »